quarta-feira, 17 de abril de 2013

Freckled

       
          Ver seu cabelo castanho claro ao lado de sua bochecha branca; não sei quando comecei a reparar, talvez sempre tenha reparado. Como um soco no estômago eu soube da ''notícia'', um turbilhão de emoções vindo ao mesmo tempo. Sentindo seu corpo encostar no meu, e eu recuando. Você achou que era brincadeira... mas logo depois viu que não era, parecia infantil, mas era verdade, eu estava com muita indignação. Depois de um pouco de tensão não queria saber o por que de você ter ido para o quarto ao lado, ter deitado sozinha. Coloquei a máscara do orgulho na minha face e ela caiu rapidamente, mas ainda estava pendurada por um cordão em meu pescoço.
          Logo que a vi deitada naquela cama grande, olhei para seu rosto tão lindo e eu não estava acostumado a vê-lo com uma lagrima correndo sob as bochechas. Senti uma dor no peito, mas a máscara ainda estava pendurada. Maldita máscara do orgulho. Tentei fingir que estava com a razão da situação e não deu certo e eu voltei para o outro quarto, pensei,pensei, pensei, pensei, e não cheguei a lugar algum. Uma ''desculpa'' de ambas partes tão superficial quanto a mascara, que ainda estava pendurada por um fio no meu pescoço.
          Logo que fui embora, sentindo o vento no rosto que fez com que a mascara finalmente caísse. Com as mãos sob o teclado comecei a digitar, escrever algo. Tentei explicar qualquer desculpa esfarrapada, tendo medo de dizer a verdade por completa. Horas foram passando, o dia estava no fim, mas o sol ainda estava brilhando. Voltei para tentar resolver algo, ou ver se algo se resolveu, ainda não tinha se resolvido. Quando à vi senti vontade de abraça-la, e abracei, forte, me desculpando.
          A semana estava apenas começando, e eu ainda não tinha voltado para casa. A noite chegou, e vi ''ele'', fechei a cara, como um túmulo, não sorria para ninguém. O seu sorriso foi ficando menos frequente, me senti culpado, mas não dizia nada para não piorar a situação. Brigas e e discussões durante a semana foram frequentes, as lagrimas no seu rosto mais uma vez fizeram meu coração receber uma facada. Sentei ao seu lado, à vi tão cabisbaixa, isso doeu muito, pedi para que ela desenhasse no meu braço. Uma série de tatuagens de caneta, algumas risadas momentâneas. Uma conversa amiga, uma conversa sincera, de velhos amigos. Outras conversas vieram, mas nada estava resolvido. Isso me deixava desconfortável.
        Até que um dia, sem ser programado, sem ser ensaiado, algumas '' verdades'' já ciente por nós dois foram ditas. Sob o doce efeito da bebida, vodka pura, cerveja, a tranquilidade misturada com um pouco de desconfiança. A noite foi passando e o quarto foi ficando escuro e quase vazio, apenas eu, ela e uma garrafa de vodka barata, deitados na cama, um leve beijo fez tudo isso começar. O que começou eu ainda não sei, e nem quero ficar tentando adivinhar. Só quero poder dormir mais uma vez com seus cabelos sob meu peito, sem preocupações, apenas com o som de nossas vozes.

Clavícula

         Dor física misturada com dor sentimental, a agonia, a vontade de sair correndo, pedalar, pedalar e pedalar sem cair. Não ver ninguém de olhos abertos, escutar apenas o som da televisão, ou de uma página de livros virando. Acordar na metade do sonho, quando está embarcando na viagem, de repente acordar, olhar para si mesmo e ver meu corpo deslisando pelo sofá, uma dor muito forte sendo suportada pela força de um de meus braços, não saber para que lado posso me mexer para sair daquela posição, desconfortável e dolorosa.
         Sem conseguir dormir, esperava que milagrosamente alguém aparecesse pela porta de entrada, sentasse ao meu lado e apenas contasse como foi seu dia, desabafasse, e me fizesse sorrir pelo menos uma vez.
          Tentando ''absorver'' toda a situação beneficamente  é doloroso e superficial, mas necessário, não poderia ficar 45 dias vendo televisão e lendo livros sem tirar algo disso tudo. Estou em treinamento, vivendo um dia de cada vez, como se fosse na escola, só que dessa  vez não é matemática que vou aprender, vou aprender a ser humano.          

domingo, 3 de março de 2013

Penélope parte 4

          O dia estava chuvoso quando Penélope acordou na casa de uma amiga, ela pegou um cigarro e fumou na cama, comeu um chocolate enquanto pensava em qualquer coisa. Foi tomar um banho, durante o banho ela pensou como poderia ser uma vida perfeita. Numa vida perfeita ela teria dinheiro, faria tudo sem se preocupar com horário, responsabilidades, iria simplesmente pegar um jato até a Europa e tomar um café num frio de - 5ºC.
          Mas o que é ser rico? Ter dinheiro? Eu nunca fui rico, mas com certeza eu não quero ser rico sozinho. Eu quero ser rico de amizades, de pessoas que fazem diferença no meu dia-a-dia, não sei, algo mais verdadeiro do que apenas malotes de dinheiro.
Escutando Velvet Underground & Nico...Heroin. Penélope carregava uma culpa que não tinha muita descrição. Ela apenas tinha na noite passada criado uma atração por uma pessoa que ela nunca esperava ter mais do que amizade. Não é nada muito sério, apenas atração. O susto é o começo de um trauma benéfico, faz com que coisas piores não venham à acontecer.
          Fumando um cigarro deitado na cama, enquanto faz uma mistura de Folk americado com PsicoTrash enfeitado com uma capa de Andy Warhol.

sábado, 2 de março de 2013

Penélope parte 3

          Estava perto do Natal, Penélope achava que não ia ganhar nada muito legal de presente. Chega a noite de Natal, todos estão na mesa, como de costume aquela coisa de família, a mãe ansiosa pelo jantar que ela preparou, o pai bebendo alguma bebida bem forte e preparando alguns petiscos. A noite foi boa, tranquila, uma noite de Natal como qualquer outra. Alguns dias depois foi até a livraria pois sua amiga iria dar-lhe um livro de presente. Pegou um livro chamado ''Misto quente'' do escritor Charles Bukowski, um livro forte, sujo e verdadeiro, durante muitas partes Penélope pode ver o reflexo de seu rosto nas páginas, como se aquela história fosse baseada em sua vida. Era tudo tão difícil de perceber, como em poucas páginas pode construir um universo inteiro?
         Um dia saiu para conversar com um amigo, Penélope não sabia que aquela noite iria ser muito marcante em sua vida. A noite foi passando e Penélope e seu amigo conversavam sobre a vida. Até que seu amigo começou a falar de futuro, profissões, a sociedade que é submissa a um padrão de cidadão ''perfeito'' falso, onde somos apenas soldadinhos de uma sociedade que não sonha.
         Todos nós temos o direito de sonhar o quanto quisermos, e de fazer com que esses sonhos sejam bases para realidades totalmente diferentes do cotidiano. Criando uma personalidade real, fugindo de uma bolha imaginária que aprisiona os pobres cidadãos, que estão apenas querendo ser '' bons seres humanos''. Estamos do lado de fora da bolha, do revés é tudo tão lindo, tão interessante.              

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Penélope parte 2

          Penélope não conseguia por seus sentimentos no lugar, estava tudo tão embaralhado. Ela era impulsiva e observadora, muitas vezes passava horas e horas apenas observando e criando pensamentos infinitos. Talvez fosse esse o problema, ela pensava demais em qualquer coisa, fazia com que a afobação tomasse conta de tudo. O impulso depois de quase explodir a cabeça de tantos pensamentos, fazia com que ela se arrependesse dos seus atos frequentemente.
         Como seria bom poder desligar o cérebro por alguns dias, meses, anos. Apenas descansar, sem amor, sem paixão, sem responsabilidades, sem mágoa, apenas um corpo parado. Para fugir de tudo isso, muitas vezes Penélope decidia dormir, tentava esquecer do vazio que tinha no peito, quando acordava, olhava para a janela, via que o dia estava lindo, pegava sua câmera, sua bicicleta, um livro e algumas tintas a base d'água. Saia sem rumo, sem direção, apenas pedalava. Olhava para todas aquelas pessoas na rua, pessoas sem sonhos, eram reféns da vida, temiam fazer algo por causa de dinheiro e status. Penélope se perguntava: '' essas pessoas não estão olhando ao redor e vendo que o mundo é enorme, e que elas estão vivendo apenas dentro da bolha onde nasceram.
         Durante sua pedalada escutava de Caetano Veloso a Jimi Hendrix, de Los Hermanos a Beatles. lembrava que em seu quarto havia um quadro da banda The Who que olhava para ela a noite inteira, ela adorava aquele quadro craquelado. Sem medo de morrer, viver, sonhar, Penélope era uma astronalta'' via o mundo de cima, do lado de fora, mas sabia que mesmo assim havia uma âncora a segurando. Ela queria voar alto sempre que escutava o trecho da música ''Have a cigar'' da banda Pink Floyd, esse trecho dizia: ''You're gonna fly high, your're never gonna die''. Ela só não sabia como fazer isso, como fazer a âncora criar asas.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Penélope parte 1

          Penélope era uma garota, pele clara, cabelos cacheados, olhos inocentes, ela tinha muito dentro de si, pensamentos eternos, lembranças, paixões, felicidade, criatividade. A sua beleza era única, mas que só era notada quando escapava um sorriso envergonhado. As vezes Penélope falava demais, a sua linga batia no céu da boca com tanta rapidez que ela enrolava as palavras, muitas vezes quase ninguém entendia o que ela tinha dito.
          Penélope era fotógrafa, desenhista, vegetariana e adorava música. Sabia tocar bateria, violão e as vezes acertava algo no piano. Falava Inglês, enrolava um pouco de Hebraico, algo de Espanhol, mas conseguia se virar em qualquer lugar que fosse, era independente fisicamente, mas havia algo a prendendo, ela não sabia o que era, se eram seus pais super protetores, ou se era ela mesmo que não se impunha contra esse mundo. Certo dia Penélope foi na Redenção, ascendeu um cigarro e olhou para as pessoas, olhando atentamente o comportamento de cada uma, com o seu olhar atento a cada gesto. Seria uma foto perfeita certa vez que viu um pai levantando o filho no colo, ele estava olhando diretamente nos olhos da criança, ambos sorriam. Penélope lembrou da sua infância, na qual seu pai era o seu maior exemplo. Estava quase no final do cigarro quando se levantou da árvore que estava deitada, tinha medo que seu irmão aparecesse, ele não poderia saber que ela estava lá, pois tinha mentido que iria sair para almoçar com algumas amigas. Foi até o Subway, pegou um sanduíche, pão integral de aveia e mel, com tomate, alface, azeitonas, rúcula, pepino, queijo cheddar, molho de mostarda e mel e cebola agridoce. Ela adorava comer isso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mais ou menos 400 dias

          Daqui a mais ou menos 400 dias um novo universo virá, à milhares de km daqui, onde o frio predomina. Irei me conhecer, viver por mim, sem me preocupar com mais ninguém, tirar tudo isso da minha cabeça. Pelo menos é isso que eu pretendo fazer. Talvez com aquele frio, aquela neve, eu sinta sua falta, saber que você estará aguentando um calor absurdo, enquanto eu estarei fazendo bonecos de neve. O dia chuvoso irá vir de outra forma, com pequenos flocos de neve caindo sobre minha jaqueta de couro. Vou olhar para o lado e saberei que estou sozinho. Sozinho num continente tão longe de casa. Será minha nova casa, um mundo que eu poderei projetar dês do começo, para que pelo menos dessa vez eu não cometa os mesmos erros. Poderei ser meu próprio juiz, onde tudo aquilo que irá me rodear não passará de pessoas que não em conhecem.
         Daqui a 400 dias mais ou menos, poderei acabar aquela música que eu fiz, ou talvez começar uma nova. Poderei esquecer de tudo isso e não escrever nada. Talvez um diário, contando cada dia, se foi legal, chato, divertido, monótono, tanto faz. Escrevendo minha própria história, podendo escolher o que irá vir primeiro, e o que irá vir por último, apenas os detalhes não poderei escolher. Quem sabe não vou embora para sempre.